Política

Postado dia 15/09/2021 às 19:08:44

Ricardo Barros morou 14 anos em apartamento de pai de dono de empresa investigada por CPI

Quando algum morador de Maringá (PR) quer encontrar o deputado federal Ricardo Barros, costuma se dirigir ao apartamento em que ele vive com a família desde 2004 na região central da cidade paranaense. O parlamentar, atual líder do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados, informou em suas prestações de contas ao Tribunal Superior Eleitoral que o imóvel é sua única propriedade residencial ao longo de quatro eleições seguidas. Porém, até 2018, o apartamento ainda estava em nome dos pais do dono de uma das empresas investigadas na CPI da Covid: a Belcher Farmacêutica.

Trata-se de um imóvel de 380 metros quadrados, com duas vagas de garagem, localizado em um prédio de luxo, com quadra de tênis, piscina e academia, em um bairro arborizado, pertinho dos pontos turísticos da cidade em que o parlamentar começou sua vida política. No site de uma imobiliária local, é possível encontrar um apartamento do mesmo porte, no mesmo prédio, por R$ 3,4 milhões.

Barros comprou o apartamento em 2004 de um antigo amigo e aliado político, Francisco Feio Ribeiro Filho, mais conhecido como Chiquinho Ribeiro, por meio de um “contrato particular” – ou seja, que não foi registrado em cartório. A venda só foi regularizada no 2º Registro de Imóveis de Maringá em 2018, data em que também foi registrado o contrato ‘de gaveta’ firmado 14 anos antes.

Nesse meio tempo, não havia qualquer confirmação legal de que a propriedade estava em nome do deputado. E é aqui que a história fica interessante: Chiquinho é pai de Daniel Moleirinho Feio Ribeiro, um dos sócios da farmacêutica Belcher do Brasil. A empresa é uma das investigadas na CPI da Covid por suspeita de irregularidades na negociação de vacinas do coronavírus pelo Ministério da Saúde – e Barros, filiado ao PP, é suspeito de beneficiar a farmacêutica.

Chiquinho constava como proprietário do apartamento junto da esposa, Rosinda Moleirinho Ribeiro, desde 1990. Ele e Barros são amigos há bastante tempo. Chiquinho foi nomeado presidente da Urbamar, companhia de urbanização de Maringá, durante o mandato de Barros como prefeito pelo então PFL, entre 1989 e 1993. Em 2018, quando a esposa de Barros, Cida Borghetti, governava o Paraná, ele se tornou conselheiro da Sanepar, empresa de saneamento do Paraná.

Questionado sobre o imóvel, Barros respondeu que o declara desde a compra no Imposto de Renda e nas prestações de contas eleitorais. No TSE, o deputado informa desde 2006 que possui parte de um imóvel no valor de R$ 130 mil. Perguntado porque demorou quase uma década e meia para transferir o apartamento para seu nome, o deputado disse apenas que achou “mais oportuno à época”. Também procuramos os representantes da Belcher, que não quiseram se manifestar.

No site de uma imobiliária local, é possível encontrar um apartamento do mesmo porte e no mesmo prédio do imóvel de Barros por R$ 3,4 milhões.

Quando foi ouvido pela CPI sobre suspeitas de participação no esquema de corrupção, em 12 de agosto, Barros afirmou que é “amigo pessoal” de Chiquinho e Daniel, mas foi esquivo ao falar de seu envolvimento com a Belcher. Tampouco lembrou de citar que morou por anos no apartamento da família Feio. Disse apenas que “como empresa da minha cidade de Maringá, gostaria que ela [Belcher] fosse mais bem-sucedida nos seus negócios“.

E ele se esforçou para isso. No começo do ano, a Belcher negociou com o Ministério da Saúde a compra de 60 milhões de doses da vacina chinesa de dose única Convidencia, produzida pela Cansino Biologics, por cerca de R$ 5 bilhões. Cada dose foi orçada em 17 dólares, uma das vacinas mais caras dentre as negociadas pelo governo (o imunizante da Janssen, também de dose única, custa 10 dólares).

A intermediação do negócio da Belcher com a cúpula do governo foi feita por Barros, conforme relato de um dos sócios da farmacêutica à CPI, e apoiada publicamente pelos empresários bolsonaristas Carlos Wizard e Luciano Hang. As negociações estavam avançadas, mas o contrato foi rescindido pela Cansino em 10 de junho, após citação da Belcher na CPI.

A Belcher tem faturado alto com o governo Bolsonaro. Ela começou a vender para a União a partir do ano passado – a imensa maioria dos contratos foi fechado após agosto, quando Ricardo Barros já era líder do governo na Câmara. O último contrato, de mais de R$ 100 mil, foi em julho deste ano. A Belcher já havia sido alvo da CPI naquele momento.


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