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Norte do Paraná
Postado dia 24/03/2026 às 20:22:29
Do reconhecimento comprado pelo comércio e da certificação ao município de Assaí
A cerimônia realizada no Pinhão Hub — centro de inovação pertencente à Agência Curitiba, inaugurado em março de 2024 para fomentar o empreendedorismo e a tecnologia — serviu de palco para mais um capítulo na construção da imagem de Assaí como suposta “primeira comunidade inteligente certificada da América Latina”. O problema é que tal façanha não resiste a um exame mínimo dos fatos: o Intelligent Community Forum (ICF), organização que concede o reconhecimento, já havia incluído cidades brasileiras como Curitiba, Piraí e Ponta Grossa em suas listas de “comunidades inteligentes” há anos . O que se vende como “feito inédito” é, na prática, mais uma operação de marketing institucional do que propriamente um marco histórico.
A certificação em questão assemelha-se, em sua essência, àquelas placas de “melhor loja do ano” ou “melhor concessionária de veículos” que se vê em estabelecimentos comerciais: frequentemente concedidas mediante contrapartidas financeiras ou parcerias promocionais, sem critérios de auditoria independente. Diferentemente de uma certificação ISO, que exige adesão rigorosa a normativas técnicas e processos de verificação externa, o selo do ICF baseia-se em conceitos teóricos e narrativas bem construídas — sem que haja obrigatoriedade de comprovação objetiva de resultados. A própria prefeitura de Assaí divulga que a cidade está há três anos consecutivos na lista das “21 comunidades mais inteligentes” , o que demonstra que o reconhecimento é recorrente, não inédito, e depende menos de entregas concretas do que da capacidade de participar de um seleto grupo de municípios que disputam visibilidade internacional.
Entre os supostos feitos atribuídos ao município, destacam-se projetos pontuais como a produção de biodiesel a partir de óleo de cozinha por alunas do ensino médio e parcerias com universidades para oferta de cursos superiores. Iniciativas louváveis, mas que não sustentam a narrativa de uma “revolução silenciosa” nem justificam o título de “única certificada” em todo o continente. O discurso do “Modelo Assaiense de Inteligência Sustentável (MAIS)” e do “Triplo-C” — Comunidade Inteligente, Cidade Inteligente e Cidade Cuidadora — apresenta-se repleto de conceitos sofisticados, mas carece de indicadores públicos que atestem transformações estruturais na qualidade de vida dos 15 mil habitantes do município.
O que está em jogo, portanto, é menos a legitimidade das ações da prefeitura e mais a forma como essas ações são vendidas como conquistas inéditas e exclusivas. A escolha do Pinhão Hub para a cerimônia - espaço vinculado ao ecossistema de inovação de Curitiba - não foi casual: trata-se de uma encenação geopolítica que busca transferir o prestígio da capital ao interior. No entanto, o reconhecimento que se pretende “histórico” revela-se, sob exame crítico, mais um exercício de autopromoção embalado em jargões da inovação — uma certificação que significa muito no discurso e quase nada na prática.




