Política

Postado dia 29/04/2026 às 05:52:40

Família unida, que rouba junto, jamais será vencida, na política

A frase, que deveria ser uma ironia, tornou-se um retrato cruel da política brasileira recente. A presença de familiares em diferentes cargos – municipal, estadual e federal – tem sido usada para fortalecer o poder político de clãs por meio da destinação de verbas do Orçamento público para suas próprias bases, ao mesmo tempo que ampliam seu poder econômico com desvios sistemáticos. Nós últimos anos, esse modelo de “nepotismo cruzado com corrupção” foi escancarado por investigações da CGU, da Polícia Federal e do STF, revelando um sistema em que a família opera como verdadeira holding do desvio.

O esquema batizado de Emenda Família é o exemplo mais didático. Entre 2025 e 2026, a CGU identificou que parlamentares de ao menos dez partidos (PT, PL, União Brasil, PSD, MDB e Novo, entre outros) usaram emendas parlamentares para abastecer ONGs e instituições comandadas por parentes até o terceiro grau. Os números impressionam: apenas 57 emendas mapeadas totalizaram R$ 105,2 milhões em potencial conflito de interesses. O ministro Flávio Dino, do STF, reagiu com dureza e proibiu a prática em janeiro de 2026, mas o estrago já estava feito.

O caso Juscelino Filho mostra a engrenagem em ação. Quando ainda deputado federal, Juscelino destinou R$ 7,5 milhões em emendas do Orçamento Secreto para a prefeitura de Vitorino Freire (MA), comandada por sua irmã, Luanna Rezende. O asfalto, segundo a CGU, beneficiou diretamente propriedades da família. Mensagens apreendidas pela PF mostravam o próprio parlamentar combinando propina com o empresário operador do esquema. Denunciado pela PGR em 2026 por corrupção e organização criminosa, Juscelino pediu demissão do Ministério das Comunicações para tentar conter os danos.

Outro exemplo vem da Família Coelho Bezerra, de Pernambuco. O ex-ministro Fernando Bezerra Coelho e seu filho, o deputado Fernando Bezerra Filho, são investigados por terem direcionado mais de R$ 100 milhões em emendas parlamentares (entre 2017 e 2021) para uma empresa de engenharia controlada por um familiar direto. O caso está sob relatoria do ministro Flávio Dino no STF e ilustra como o domínio de cargos no Legislativo e no Executivo pode ser convertido em enriquecimento privado de linhagem.

A chamada Máfia das Emendas representa o guarda-chuva sob o qual esses casos se reúnem. Até março de 2026, o STF já contabilizava 92 inquéritos sobre desvios de emendas, investigando corrupção ativa, organização criminosa e a perpetuação do Orçamento Secreto. Dois deputados do PL do Maranhão – Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil – foram a julgamento e condenados em março de 2026 por exigirem 25% de propina (R$ 1,5 milhão) para liberar R$ 6 milhões em emendas para um município em 2020.

Casos menores, mas igualmente reveladores, pululam. A ex-deputada Tereza Nelma (PSD-AL) destinou R$ 8,5 milhões para a Associação Pestalozzi, que ela própria presidiu por uma década – e parte do dinheiro foi pagar aluguel de um imóvel de seu marido. O deputado Eduardo Velloso (União Brasil-AC) redirecionou verba de eventos culturais para um hospital particular de seu pai, onde a CGU apontou superfaturamento de até 1.826% em cirurgias. Já o deputado Raimundo Costa (Podemos-BA) enviou R$ 17,2 milhões para uma federação de pescadores que ele comandou até 2022, com conflito de interesse envolvendo parentes de ex-assessores.

O que todos esses episódios comprovam que o dito popular “família unida, jamais será vencida” ganhou uma tradução perversa na política brasileira: enquanto não houver responsabilização efetiva, fim do Orçamento Secreto e punição exemplar a parlamentares e seus parentes, a união familiar continuará sendo a estrutura de blindagem ideal para o desvio de verbas das Assembleias Legislativas e do Congresso Nacional.


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