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Postado dia 20/06/2026 às 12:28:34

Do ‘power point” do Lula ao trem de Aragua de Maduro: Mafia-Estado?

Considerados “companheiros” e alinhados à esquerda, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Nicolás Maduro, da Venezuela, compartilham o estigma de terem sido apontados como líderes de esquemas criminosos — mas suas respectivas acusações trilham destinos opostos. Uma ruína jurídica que gerou condenação ao acusador, e outra que persiste como engrenagem da política externa americana para enquadrar a Venezuela como um 'Estado mafioso' e justificar a intervenção.

A acusação formal contra Lula na Lava Jato encontrou um de seus momentos mais emblemáticos na apresentação em PowerPoint feita pelo então procurador Deltan Dallagnol em 2016. Na ocasião, um slide com círculos azuis e nomes posicionava o ex-presidente como o centro de uma suposta organização criminosa, uma imagem que foi amplamente divulgada pela imprensa. Anos depois, contudo, a narrativa construída por aquele recurso audiovisual foi desmontada no plano jurídico. Em março de 2022, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou Dallagnol ao pagamento de indenização por danos morais a Lula. O valor, corrigido, chegou a R$ 146 mil em dezembro de 2025, quitado com doações de apoiadores. O ex-procurador, por sua vez, declarou não se arrepender e que “faria mil vezes” a apresentação.

Esse episódio ilustra como a força de uma acusação pode residir menos na solidez das provas e mais na eficácia de sua encenação midiática - um mecanismo que encontra paralelo na forma como o governo dos Estados Unidos tem conduzido suas acusações contra Nicolás Maduro. Em 2020, ainda no primeiro mandato de Donald Trump, o Departamento de Justiça americano denunciou o presidente venezuelano como líder do Cartel de los Soles, uma organização criminosa dedicada ao narcotráfico. Essa acusação serviu de base para a invasão da Venezuela e o envio de Maduro aos Estados Unidos. Em janeiro de 2026, porém, os EUA alteraram os termos da denúncia: o Cartel de los Soles deixou de ser descrito como uma organização formal e passou a ser tratado como um “sistema de clientelismo” - uma “cultura de corrupção” da qual Maduro participaria, sem necessariamente liderá-la. As acusações formais de narcotráfico, no entanto, permanecem.

Para o governo norte-americano, a Venezuela é Mafia-Estado” (“mafia state”). Trata-se de um Estado onde altos funcionários não são cooptados pelo crime organizado, mas são eles próprios seus protagonistas, e onde a promoção do ilícito se torna política de Estado. É nesse contexto que o Tren de Aragua floresceu. Nascido na prisão venezuelana de Tocorón, o grupo expandiu-se em menos de uma década para mais de dez países da América Latina, adotando um modelo de franquia e diversificando suas fontes de financiamento. A morte de seu líder, “Niño Guerrero”, em um ataque conjunto entre EUA e Venezuela em junho de 2026, foi celebrada como um golpe importante, mas especialistas advertem que a organização tende a se reorganizar em facções, dada sua estrutura resiliente.

O paralelo entre os dois casos sugere que, tanto no Brasil quanto na Venezuela, a construção de narrativas criminais contra líderes políticos frequentemente prescinde de um devido processo legal e se apoia em acusações de amplitude difusa - como “organização criminosa” ou “cultura de corrupção” -, cuja vagueza permite múltiplos enquadramentos políticos. No Brasil, a condenação de Dallagnol por danos morais evidenciou os excessos de uma acusação que buscava mais efeito midiático do que robustez jurídica. Na Venezuela, a alteração da denúncia americana contra Maduro - que recuou da tese de liderança de um cartel para a de participação em uma “cultura de corrupção” - revela fragilidades semelhantes na fundamentação das acusações que justificaram uma intervenção militar.

Em ambos os cenários, o que se observa é a tentativa de rotular governantes como chefes de esquemas criminosos - Lula como “comandante e maestro” de uma organização, Maduro como líder do Cartel dos Soles ou protetor do Tren de Aragua -, utilizando acusações que, embora politicamente eficazes em determinado momento, revelam-se frágeis quando submetidas ao escrutínio judicial ou factual. O conceito de “Mafia-Estado”, aplicado à Venezuela, descreve um fenômeno de captura do Estado pelo crime; já no Brasil, a Lava Jato buscou, sem sucesso, provar que Lula comandava uma “propinocracia”. A diferença fundamental, talvez, esteja no desfecho. Enquanto a acusação contra Lula foi judicialmente desmontada e seu autor condenado, a acusação contra Maduro serviu de justificativa para uma invasão e continua em aberto, ainda que seus termos tenham sido significativamente atenuados.

 

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