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Política
Postado dia 28/09/2026 às 12:28:11
Por que é difícil para as pesquisas preverem quem ganha para o Senado
As pesquisas de intenção de voto para o Senado costumam apresentar diferenças em relação aos resultados nas urnas. Decisão de última hora, falta de engajamento dos eleitores e escolha de dois candidatos são algumas das explicações apresentadas pelos institutos.
Surpresas recentes
Em 2022, resultados para o Senado foram diferentes do que previam as pesquisas em vários colégios eleitorais. Em São Paulo, por exemplo, Marcos Pontes (PL) venceu Márcio França (PSB) com um placar de 49,68% a 36,27%, tendo passado a campanha inteira atrás do rival, segundo levantamentos. Apenas uma cadeira estava em disputa naquele ano.
Pesquisa AtlasIntel foi uma das poucas a captar a ultrapassagem de Pontes na reta final. Levantamento divulgado na véspera registrou 29% dos votos para o vencedor, contra 27,3% para o rival. Já a pesquisa Genial/Quaest da mesma data apontava empate técnico, com 39% dos votos cada, enquanto o Datafolha colocava França à frente de Pontes, com 45% a 31%.
Da mesma forma, no Distrito Federal, Damares Alves (Republicanos) virou sobre Flávia Arruda (PL). Ela foi eleita com 44,98% dos votos, ante 27,05% da segunda colocada. No Rio Grande do Sul, Hamilton Mourão (Republicanos) bateu Olívio Dutra (PT), por 44,11 a 37,85%. Ambos os casos contrariaram as pesquisas.
Quando duas cadeiras por estado estão em disputa, como acontece neste ano, as diferenças tendem a ser ainda maior. Em 2018, quando dois terços do Senado foram renovados, Dilma Rousseff (PT) liderava com folga em Minas Gerais, mas acabou em quarto lugar. No mesmo ano, em São Paulo, Eduardo Suplicy (PT) figurava na ponta nas intenções até a véspera, mas as vagas ficaram com Major Olímpio (PSL) e Mara Gabrilli (PSDB).
Decisão sobre o Senado fica para o final
Apesar de ser um cargo majoritário e com mandato de oito anos, historicamente, a votação para o Senado recebe atenção do eleitor muito mais tarde. Quando os institutos de pesquisa encerram a coleta de campo na sexta-feira ou no sábado anterior ao pleito, há um grande contingente de indecisos.
"As pessoas não estão pensando na eleição para o Senado e deixam para a última hora", segundo Luciana Chong, do Datafolha. Esse eleitor decide o voto no último instante, muitas vezes influenciado pelo "santinho" recolhido no chão ou pela sugestão de um familiar, explicou a especialista.
Em 2018, 22% dos eleitores disseram ter decidido o voto para senador no dia da eleição e 10%, na véspera, segundo o Datafolha. A pesquisa feita logo depois do primeiro turno mostrou ainda que 42% escolheram seus candidatos pelo menos um mês antes; enquanto 13% disseram que tinham os nomes definidos uma semana antes; e outros 13%, 15 dias antes.
Pesquisa Quaest de 2026 confirma o padrão. Em agosto, o instituto perguntou em que momento os eleitores costumam decidir seus votos para o Senado, e 14% disseram que a escolha ocorre no próprio dia. Outros 18% afirmaram que selecionam seus candidatos na semana ou na véspera; 29%, um mês ou algumas semanas antes; 34%, vários meses antes; e 5% não souberam ou não responderam.
Urna, duas vagas e fake news também pesam
Ordem foi pensada para evitar que eleitores votassem nos cargos majoritários e abandonassem a seção antes de registrar os demais. Quando o eleitor desavisado digita o número do candidato a presidente no campo para deputado federal e confirma, o voto é computado para o partido ou coligação do presidente.
Outra confusão comum é em relação às duas vagas para o Senado. De oito em oito anos, dois terços da Casa são renovados, ou seja, é preciso votar em dois candidatos diferentes. Se o segundo voto for igual ao primeiro, ele é considerado nulo. Muitos eleitores acabam escolhendo apenas um candidato e anulam deliberadamente o segundo voto, reduzindo a base de votos válidos da segunda vaga.
Fake news também têm seu papel na escolha por senadores, lembra a diretora do Datafolha. Circulou no WhatsApp uma informação incorreta que afirmava que se o eleitor escolher um candidato a presidente, mas votar em branco para os demais cargos, o voto seria considerado "parcial" e acabaria sendo anulado. Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), post dizia que só seriam computados como válidos os votos "completos", ou seja, para todas as vagas que estão em disputa.
Quando questionados se a frase "pesquisa é fotografia, não filme" é suficiente para justificar diferenças expressivas em relação à urna, especialistas foram categóricos ao afirmar que sim. Conforme Chong, com grande contingente de indecisos, os levantamentos mostram que os eleitores não estão engajados na votação, mesmo se tratando de um cargo de suma importância para a República na formulação de leis, garantia de governabilidade do Executivo, impeachment e aprovação de ministros de STF (Supremo Tribunal Federal) — que passa por uma crise institucional — e destituição do próprio presidente da República, entre outras atribuições.
CEO da Quaest, Felipe Nunes destacou que as pesquisas mostram um cenário de intenção de votos. "Achar que as pesquisas neste momento servem para prever o Senado é um erro. As pesquisas apenas mostram quantos estão indecisos, quantos já decidiram, qual a intenção de voto de cada grupo; nunca medimos o comportamento efetivo, que só vai acontecer na urna", declarou.
Da mesma forma que um exame de sangue te diz qual o seu nível de glicose hoje, uma pesquisa te diz a intenção de voto no senado hoje. O exame de sangue não tem como adivinhar se você vai comer muito chocolate amanhã para dizer hoje se seu nível de glicose vai aumentar. Isso só seria possível se outro exame de sangue fosse feito.
"Nosso trabalho não é projetar, prever. Mas tirar uma foto do momento eleitoral. (...) Especialmente no caso do Senado, é bastante provável que os resultados das urnas apareçam com mensurações diferentes do que é feito nas pesquisas porque o número de indecisos que vai escolher na urna seu candidato é enorme. A medida que fazemos serve muito mais para entender quão imprevisível é o resultado, menos para tentar acertá-lo" - Felipe Nunes, CEO da Quaest.




