Política

Postado dia 26/02/2026 às 14:37:08

Dos padres e pastores que roubam o povo

A recente condenação do padre Egídio de Carvalho Neto, na Paraíba, reacende o debate sobre um tema incômodo e persistente no Brasil: o uso de dinheiro de fiéis para fins alheios à fé. O desfecho judicial envolvendo o religioso contrasta com arquivamentos como o do padre Robson de Oliveira, revelando como desvios milionários de líderes religiosos se conectam ao poder público e à política nacional.

Em 13 de fevereiro de 2026, a juíza Ana Christina Soares Penazzi Coelho, da 3ª Vara Criminal de João Pessoa (PB), condenou o padre Egídio a 5 anos, 6 meses e 20 dias de prisão, além de multa, pelo furto de mais de 600 celulares doados pela Receita Federal ao hospital filantrópico ligado à Igreja, do qual ele era diretor, em 2023. Um assistente seu, que teria participado do crime, também foi condenado a 4 anos, 7 meses e 16 dias de prisão, além de multa. Ambos deverão cumprir a pena inicialmente em regime semiaberto.

Já o padre Robson de Oliveira, então reitor do Santuário Basílica de Trindade (GO) e fundador da AFIPE (Associação dos Filhos do Pai Eterno), havia sido acusado de se apropriar de R$ 120 milhões de um total de R$ 2 bilhões movimentados. Ele foi alvo da “Operação Vendilhões” por suspeitas de desvio de doações, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O religioso havia utilizado recursos da entidade para aquisição de propriedades rurais, incluindo uma fazenda de R$ 6 milhões em Abadiânia (GO) e uma casa de praia avaliada em R$ 3 milhões em Guarajuba (BA), além da compra de avião e emissora de rádio.

Apesar da constatação de uso de pelo menos R$ 1,2 milhão da Afipe para pagamento de extorsão no valor de R$ 2,9 milhões a hackers — para evitar a divulgação de fotos e vídeos de sua vida pessoal — e da identificação de mais de 1,2 mil negociações imobiliárias, o padre teve arquivadas as ações criminal e cível pelo STJ (18 de maio de 2022) e pelo STF (10 de setembro de 2024). A Justiça não o inocentou formalmente, mas entendeu que, no contexto de uma associação privada, as condutas não configuravam crime.

Enquanto o STF encerrava o caso do padre Robson em Goiás, no Sul do país surgia outro episódio: a “Operação Pecado Capital”, que escancarou um esquema de menores proporções, mas igualmente simbólico. Em fevereiro de 2026, a operação resultou no afastamento de um padre da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Três de Maio (RS), com mandados de busca cumpridos na casa paroquial e em propriedades do investigado em Giruá (RS).

Paralelamente, a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigou um esquema nacional de descontos indevidos e empréstimos consignados fraudulentos contra aposentados e pensionistas, também identificou movimentações suspeitas envolvendo líderes religiosos. Entre os citados estão Heber Pereira Trigueiro (Igreja Adoração Church, R$ 366 mil); Antônio Nunes da Silva (Assembleia de Deus Ministério do Renovo, R$ 511 mil); Cesar Belluci do Nascimento (Ministério Deus é Fiel, R$ 988 mil); Péricles Albino Gonçalves (Igreja Evangélica Campo de Anatote, R$ 200 mil); André Machado Valadão (Igreja Lagoinha); Fabiano Campos Zettel (Igreja Bola de Neve, sexto maior doador das eleições de 2022); e André Fernandes (Igreja Lagoinha, R$ 200 mil).

Durante o governo do presidente Jair Messias Bolsonaro (2019/2022), pastores conduziram uma espécie de “gabinete paralelo” no Ministério da Educação (MEC). Presos pela Polícia Federal na Operação Acesso Pago, os líderes religiosos Gilmar Silva dos Santos e Arilton Moura são acusados de pedir propina — entre R$ 15 mil e R$ 40 mil por prefeitura, além de barras de ouro — para facilitar a liberação de recursos federais, contando ainda com a colaboração do então ministro Milton Ribeiro, também pastor.

Se o “gabinete paralelo” revelou a promiscuidade entre fé e poder no primeiro escalão do governo federal, o caso do pastor Everaldo Pereira mostra como essas conexões se repetem em outras esferas e acabam, mais uma vez, em reviravoltas judiciais. Presidente do Partido Social Cristão (PSC) e pastor da Assembleia de Deus, Everaldo foi preso em agosto de 2020, durante desdobramento da Operação Tris in Idem, braço da Lava Jato no Rio de Janeiro. A acusação versava sobre cobrança de R$ 40 milhões em proprina para viabilizar a compra de terrenos e a construção de um campus do Instituto Federal Fluminense (IFF) em Campos dos Goytacazes (RJ). Segundo o Ministério Público, ele usava seu acesso ao Palácio do Planalto para intermediar negócios em troca de vantagens indevidas. O desfecho, no entanto, ecoa o caso do padre Robson: em agosto de 2024, o STJ anulou as provas da operação, considerando-as ilícitas por falhas na delação premiada que deu origem à investigação. Everaldo deixou de ser réu. Mais uma vez, a Justiça colocou uma pedra sobre suspeitas de corrupção envolvendo uma liderança religiosa com trânsito político.


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